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Ricardo Pessoa apontado ao FC Porto

"Europa? Não deu enquanto jogador, mas vou conseguir como treinador"

“Europa? Não deu enquanto jogador, mas vou conseguir como treinador”

Ricardo Pessoa terminou uma carreira de 25 anos como futebolista em 2018 e, logo de seguida, não hesitou em abraçar a profissão de treinador. Em conversa com o Desporto ao Minuto, o técnico de 40 anos recordou os primeiros passos da nova aventura e garantiu que os sonhos e objetivos que não foram cumpridos no passado podem sê-lo no futuro.
Figura incontornável da história do Portimonense, Ricardo Pessoa representou o clube como jogador e, mais recentemente, como treinador-adjunto. Abandonou os algarvios no final da temporada passada, altura em que integrava a equipa técnica liderada por Paulo Sérgio, tendo colocado termo a uma ligação de 17 anos, os últimos quatro no papel de técnico.

Em entrevista exclusiva ao Desporto ao Minuto, o técnico de 40 anos abordou os primeiros passos na nova profissão e recordou várias fases da carreira de futebolista, principalmente os momentos mais marcantes em Portimão, mas sem esquecer o Vitória FC, emblema que o lançou para a estreia na I Liga.

Em 2017/2018, dois dias bastaram para decidir que ia colocar termo à carreira de jogador, mas a convicção de continuar no mundo do futebol era tanta que na época seguinte Ricardo Pessoa passou do relvado para o banco de suplentes.

A partir daqui, o jovem técnico acredita que os sonhos que não foram cumpridos no passado podem transformar-se em realidade no futuro, desta feita com novas funções.

Sentia que, por muitas condições que tivesse para continuar a jogar futebol, queria mesmo terminar no patamar onde achava que merecia terminar, na I Liga

Depois de cerca de 25 anos a jogar futebol, como surgiu a ideia de se tornar treinador?

Eu sempre tive a convicção de que, quando deixasse de jogar, iria continuar no mundo do futebol. Sinceramente, não me via atrás de uma secretária, mesmo no futebol. A minha paixão sempre foi o terreno e estar perto do relvado, da bola, dos jogadores. Com 21 anos, tirei o meu primeiro nível de treinador. Mais tarde, com 32 anos, ainda como jogador, andei a tirar o segundo nível em Évora e ia de Portimão para lá. Portanto, isto foi algo que foi crescendo dentro de mim e, nestes últimos anos, tive a convicção realmente daquilo que queria. Sempre olhei para o futebol de outra forma, não só enquanto jogador que vai para treinar ou jogar, porque sempre vi e acompanhei muito futebol. Foi como uma semente que acabou por nascer dentro de mim até que chegou à altura de terminar a carreira. Podia ter continuado a jogar [com 36 anos], mas queria ganhar algum tempo para poder começar a construir a minha carreira enquanto treinador.

Após 13 anos ligado contratualmente ao Portimonense como futebolista, acaba por começar a carreira de treinador precisamente em Portimão. Como é que tudo aconteceu?

Aconteceu tudo muito rápido. Surpreendi toda a gente com a minha decisão. No meu último ano tive a lesão mais grave da minha carreira, uma entorse gravíssima que me rompeu um dos ligamentos do tornozelo. Fisicamente, sentia-me bem. Mas comecei a pensar na tal ideia de construir a carreira de treinador. Sentia que, por muitas condições que tivesse para continuar a jogar futebol, queria mesmo terminar no patamar onde achava que merecia terminar, na I Liga. Pensei também que, qualquer lesão que acontecesse a partir dali, a recuperação nunca seria a mesma, pela idade e pelas marcas no corpo. Foram fatores que me levaram a tomar essa decisão e tomei-a em dois dias. Nós jogávamos a última jornada do campeonato a um domingo e, na sexta-feira, comuniquei primeiramente à minha família que ia deixar de jogar.

Ao todo, foram 17 anos ligado ao Portimonense [desde 2005]. Que peso tem sair do clube para abraçar outros projetos?

A verdade é que nunca é fácil. Isto não é uma questão de vaidade, mas sou um dos símbolos da história do Portimonense. Isso ninguém vai apagar, quer queiram, quer não. Nem a minha, nem a de muitos outros que por aqui passaram. Mas a verdade é que eu não posso estar no futebol ou num clube só porque me sinto confortável. Tenho de estar no futebol para sentir que posso acrescentar algo. Se não puder acrescentar num sítio, vou poder acrescentar noutros sítios. Sinto que o vou conseguir de certeza. É lógico que sair de um clube onde temos toda uma história não é fácil, até porque fazemos muitas amizades e conhecemos muitas referências dentro e fora do campo que ajudaram a tornar o Portimonense aquilo que hoje é. Antes de mim, saíram muitas pessoas que amavam e amam este clube, como eu vou continuar a amar. A gente passa, o clube fica sempre. Não há mágoa, há alguma tristeza. Mas não me posso agarrar muito a esses sentimentos, porque tenho é de olhar para a frente, para conquistar muitas coisas.

Gostaria de chegar a um ‘grande’, mas para lá chegar há todo um trajeto a cumprir a partir de trás. O meu foco, neste momento, não é onde eu vou chegar, mas sim onde vou começar

Em Portimão, treinou jogadores como Jackson Martínez, Beto e Nakajima. Como foi observar esse talento de perto?

É espetacular. É aquilo que nós, enquanto treinadores, gostamos e queremos. Trabalhar com grandes craques, mas também com jogadores que vêm de patamares mais baixos e têm uma vontade incrível de chegar lá acima, porque não se vergam e querem mais. Jackson Martínez e Nakajima são os craques. E depois temos o Beto, que vem de outro patamar inferior, com uma capacidade técnica aquém dos outros, mas que conta com uma vontade e um crer enorme. A mim apaixonou-me trabalhar com o Beto por isso mesmo, ele sabia as dificuldades que tinha em dominar uma bola. Rematava à baliza e, nas primeiras finalizações, a bola lá ia para cima. Mas ele dizia para o mister que queria trabalhar mais isto e aquilo e acabou por chegar lá. Ele trabalhou muito e o mérito é todo dele, tal como de muitos outros jogadores que passaram pelo Portimonense, como o Fali Candé, o Bruno Tabata, que chegou a ser meu colega, e ainda Ewerton, Pedro Sá, Paulinho, Lucas Possignolo… Isto é o que queremos, jogadores com muita ambição, independentemente de serem craques ou de terem o nome na história do futebol mundial, como é o caso do Jackson Martínez. Acho que muitos jogadores hoje em dia deviam ter trabalhado de perto com o Jackson Martínez. Primeiro, para perceber o sofrimento que aquele rapaz tinha todos os dias após as lesões. Segundo, para perceber a superação que ele tinha por querer mostrar o “velho Jackson”. São situações que, para esta malta que atualmente está no futebol a chegar ao estrelato, daria para perceber que no futebol não há só coisas boas. Por exemplo, estar num treino com bola e ficar a coxear com um simples passe, era elucidativo para demonstrar o espírito que se pode ter.

Ambiciona treinar que tipo de equipas em Portugal?

Gostaria de chegar a um ‘grande’, mas para lá chegar tenho todo um trajeto a cumprir a partir de trás. O meu foco, neste momento, não é onde eu vou chegar, mas sim onde vou começar. Não tenho problemas nenhuns em começar por baixo, onde nunca joguei, mas onde eu sei que me vai dar muita estaleca e muita coisa boa. Essas vivências irão fazer-me pensar de forma diferente, de modo a perceber o que posso e devo alterar quando chegar a outro patamar. Sei que vou começar por baixo, seja no Campeonato de Portugal ou na Liga 3, mas acredito que vai ser bom.

Que referências encontra em Portugal a nível de treinadores, precisamente na lógica de começar por baixo e chegar a altos patamares?

O Paulo Fonseca, por exemplo. Começou por baixo e está onde está. O Rui Vitória é outro caso, que ainda passou pela formação do Benfica, mas esteve no CD Fátima até começar a ir por aí além. O próprio Pepa, que começou na Sanjoanense e trilhou todo um caminho na I Liga. Mas o Paulo Fonseca é logo dos primeiros nomes que me surge, até porque todos nós já vimos o patamar onde ele já chegou e pode chegar ainda mais longe. Referi três nomes, mas há muitos mais, claro.

E no estrangeiro? Tem alguma meta a atingir enquanto treinador?

Há uma meta, sim. Gostaria de treinar em Itália, na Serie A. Muita gente vai dizer como é que um treinador ofensivo gostaria de trabalhar em Itália. Mas um dado que muita gente desconhece é que o futebol italiano é dos campeonatos onde existe a maior média de golos por jogo, portanto a lógica defensiva tem vindo a diluir ao longo dos anos. Daí a ideia de poder perceber como é que um treinador ofensivo poderia ter sucesso no campeonato italiano. Seria um desafio.

Recentemente, o Ricardo tem estado envolvido em projetos de treino que envolvem jogadores fora do contexto de clube [como o Diogo Dalot, por exemplo]. O que pretende ao integrar esse tipo de projetos?

Isto aconteceu sem eu estar à espera. Surgiu um convite do Mário Simões, que trabalha diretamente com o Diogo [Dalot], em que foi proposto poder ajudá-lo a ele e a outros jogadores a entrar na nova época com um andamento mais forte. O Mário [Simões] disse-me que a área dele não era propriamente o trabalho com bola e perguntou-me se queria fazer essa parte técnico-tática todos os dias, algo que eu aceitei. Foi uma experiência muito boa, que adorei. Permitiu-me matar um bocadinho o bichinho. Estar um mês sem poder estar no terreno já me custava. É engraçado que, ali, nós trabalhamos com grupos muitos pequenos, de três ou quatro elementos. Por isso, temos que transformar vários exercícios programados para 15 ou 20 pessoas num núcleo mais reduzido, algo que também foi gratificante. Acho que estes trabalhos com jogadores vão ser cada vez mais normais. No espaço onde nós estávamos, na Quinta do Lago, no Algarve, estiveram jogadores da Premier League como Van Dijk e Oxlade-Chamberlain, já de uma elite diferente. No nosso grupo de trabalho, além do Diogo Dalot, esteve também o Vasco Coelho, o Bernardo Folha, o [Stephen] Eustáquio. Eu fui só um complemento daquilo que o Mário tinha trabalhado com eles. Acredito que isto vai estar cada vez mais nas pré-épocas ou nas fases que antecedem as pré-épocas e acho que isto pode ser bastante positivo. Não estamos ali a sobrecarregar. Há um trabalho estipulado. Queremos é que os jogadores entrem nas pré-épocas já preparados. Antes não havia nada disto, o máximo que nós fazíamos era uma corrida contínua e nada mais. Acho que este complemento, cada vez mais, vai estar associado aos clubes. Vai haver uma ligação maior.

Enquanto o Ricardo não encontrar um clube para treinar, acredita que, estas novas experiências, são um bom ponto de evolução?

Acredito a 100% que sim. Primeiro, pela lógica dos exercícios. Estão programados para grupos grandes e tento fazê-los para grupos mais pequenos, logo aí é algo que nos faz refletir e perceber como pode dar certo. Outra das razões é saber que, futuramente como treinador, os jogadores podem já ir preparados de determinada forma para uma pré-época, pelo que é um acréscimo que levamos daqui para a frente. Para além disso tudo, continua a ser aquilo que eu gosto de fazer. Estar com os jogadores, privar com eles e estar no centro das operações.

Desde que saiu do Portimonense, já recebeu algum contacto para ser treinador principal de uma equipa ou até mesmo para integrar uma nova equipa técnica?

Cheguei a falar com duas ou três pessoas por alto. Digo sinceramente que não houve nenhum convite direcionado para mim. Mas não estou preocupado porque sei que pode levar o seu tempo. Estou preparado para esperar o tempo que tiver que esperar. Apenas sei também que tenho de estar preparado para quando a oportunidade surgir e, quando isso acontecer, quero usufruir para mostrar o meu trabalho, a minha filosofia e as ideias que considero serem benéficas. Nós sabemos que cada vez há menos oportunidades e, como costumo dizer, não podemos deixar fugir o comboio, porque passa uma vez e nunca sabemos quando vai surgir a próxima. No fundo, estar preparado para a oportunidade quando surgir.

Recuando até à carreira de jogador, o Ricardo deu os primeiros passos no Estrela de Vendas Novas e passou pela formação do Vitória FC, onde se estreou como sénior. Conte-nos como foi esse momento de estreia na I Liga

Foi fantástico, é tudo aquilo que nós sonhamos em crianças. Quando nós somos formados num clube, a nossa meta é estrearmo-nos na equipa principal onde nos formámos. Tive essa felicidade de concretizar o objetivo no meu clube de formação, o Vitória FC, que continua a ser um clube muito querido para mim porque passei lá uma década [entre 1995 e 2005]. Não esquecerei essa estreia, que aconteceu em Paços de Ferreira na I Liga e o curioso é que terminei a carreira, em Portimão, precisamente com o Paços de Ferreira. Na altura, o Vitória FC tinha um plantel recheado de grandes jogadores e claro que aquele nervosismo na estreia passou um pouco ao lado por ter jogadores que me ajudaram nesse momento.

Foi precisamente no Vitória FC que o Ricardo Pessoa foi chamado aos vários escalões da seleção. Fale-nos um pouco de como tudo isso aconteceu.

Comecei a ser chamado à seleção nos sub-18, ainda era júnior quando tive a minha primeira internacionalização. Quando se está num clube como o Vitória FC, que naquela altura tinha uma das melhores escolas de formação do país, há uma visibilidade maior e, com destaque, há essa chegada à seleção, tanto nos escalões mais abaixo, como em sénior. Na altura, no clube, tínhamos sempre dois ou três jogadores a representar a seleção nacional.

Em Setúbal, chegou a jogar tanto na I Liga, como na II Liga [apenas em 2003/04], mas o ponto mais alto terá sido a conquista da Taça de Portugalem 2005 [após vencer o Benfica por 2-1]. Onde estava nesse dia histórico para o Vitória FC?

Nesse jogo do Jamor, fiquei de fora. Fui cortado da lista de 18 jogadores. Mas poder ter feito parte dessa história e ter esse título agregado a mim é especial. Foi uma final em que começámos a perder, estava muito calor e o nosso sofrimento na bancada era maior. Quando o árbitro deu o encerrar da partida é que foi um extravasar de emoções e uma forte adrenalina fora das quatro linhas.

É precisamente nesse ano, em 2005, que o Ricardo troca a I Liga pela II Liga ao sair do Vitória FC para o Portimonense. Sente que foi um ‘passo atrás’ necessário para jogar com mais regularidade?

Podemos encarar o passo atrás da forma como quisermos. Eu posso dizer que, para mim, não foi um passo atrás. Procuro sempre numa situação negativa ver o lado positivo. E esse lado é que eu ia jogar mais vezes, ainda que nada fosse garantido. Conhecia o treinador, o Diamantino Miranda, que tinha sido meu treinador no Vitória FC. Foram muitos anos, precisava de uma mudança, de me encontrar comigo mesmo e de me auto-desafiar para perceber onde podia chegar. Claro que trocar um clube da I Liga, que tinha acabado de vencer a Taça de Portugal, por um clube da II Liga, que tinha tido dificuldades para se manter no ano anterior, dá aso à ideia do passo atrás. Mas foi dentro dessa situação menos positiva que eu fui buscar o que de mais positivo poderia retirar. Tinha de trabalhar muito e desafiar-me a mim mesmo.

Das 13 épocas de ligação contatual aos algarvios, o Ricardo jogou na I Liga em apenas duas delas, em 2010/11 e em 2017/18, tendo estado presente numa descida e em duas subidas. Foram esses os pontos de maior contraste na sua passagem pelo clube?

Desportivamente, sim. Ninguém gosta de estar associado a uma descida, ainda para mais quando já temos uma ligação tão grande ao clube, porque já não somos só jogadores, somos também adeptos. Custa-nos mais, fere-nos mais o coração. Em contrapartida, temos o sentimento oposto, que é quando subimos e aí vem a alegria do feito. Raramente há um jogador que pode dizer que, em toda a sua carreira, só teve momentos alegres.

Pelo meio, contou com uma passagem pelo Moreirense em 2012/13 [na I Liga], naquela que foi a única experiência no norte de Portugal. Por que razão saiu naquela altura se era opção regular de todos os técnicos no Portimonense?

O Portimonense, dentro de campo, cai da II Liga. Depois, passado um mês, acaba por ser ‘repescado’ por problemas financeiros do Varzim, que não cumpriu uns requisitos. Nessa altura disseram-me que não tinham capacidade financeira para me pagar, por mais que quisessem manter-me por ser capitão, pelo que tive de ir à procura de outro clube. Entretanto, entre dois ou três clubes da I Liga que surgiram, acabei por assinar pelo Moreirense por apenas um ano. Claro que a expectativa era sempre a de regressar a Portimão na época seguinte, o que acabou por acontecer. A impossibilidade de o Portimonense ficar comigo levou-me a sair.

Apesar de ser defesa, o Ricardo contabilizou dezenas de golos, principalmente na passagem pelo Portimonense, ainda que muitos deles tenham surgido da marca de grande penalidade. Qual o golo mais marcante da carreira?

Posso enumerar dois ou três. Em 2010, quando estamos para subir, estávamos a vencer 2-0 e de repente o Varzim empata aos 87 minutos, mas nós aos 90+3′ tivemos um penálti a nosso favor, que acabei por concretizar. Não é um grande golo, mas para todo aquele estádio completamente cheio, tinha um significado muito grande. Marcar no Estádio da Luz, a uma equipa como o Benfica, também tem um significado muito grande. Por fim, o último golo da minha carreira, que foi num jogo da Taça da Liga, de livre direto, que eu normalmente executava bastante bem.

O meu orgulho é imenso porque consegui com que as pessoas se lembrem de mim por algo de bom que fiz, principalmente os adeptos do Portimonense, que olham para mim como uma das pessoas mais importantes da história do clube

O Ricardo é líder destacado na tabela de futebolistas com mais jogos pelo Portimonense, com 426 jogos [mais de 150 por comparação a Rúben Fernandes, que surge logo atrás]. Qual o sentimento dessa marca no clube? 

Nós quando pensamos em ter uma carreira de jogador, temos sempre os objetivos de chegar a grandes clubes e vencer muitos troféus. Não vou dizer que não era esse o meu pensamento, obviamente que era. Mas depois de não conseguir alcançar isso, eu tinha a meta de marcar o meu nome na história de um clube. A verdade é que consegui e isso está relacionado com os ídolos que sempre tive, que foram os jogadores que marcaram incontornavelmente em vários clubes, como o [Paolo] Maldini ou o [Javier] Zanetti. Acabei por seguir um pouco daquilo que os meus ídolos fizeram, como o Totti também. É um sentimento muito bom, mas muita gente me pergunta por que razão nunca fui para o estrangeiro. Não foi por falta de opção, até porque algumas vezes existiu essa possibilidade de ir e a minha vontade era essa, mas por motivos alheios a mim isso não aconteceu. Da mesma forma que houve outras que não acontecera, porque entendi que não deveria ir. A verdade é que criei sempre objetivos ao longo das épocas para não cair num facilitismo de estar no mesmo clube e poder continuar a dar sempre mais de mim. Os números dizem tudo, mas não são só números. É também muita dedicação e paixão pelo clube. A única vez que saí fui quase obrigado a sair, repare-se. O meu orgulho é imenso porque consegui com que as pessoas se lembrem de mim por algo de bom que fiz, principalmente os adeptos do Portimonense, que olham para mim como uma das pessoas mais importantes da história do clube.

Nunca ter jogado nas competições europeias é, de certo modo, um objetivo que ficou por cumprir?

Não ficou por cumprir, porque ainda se vai cumprir um dia. Não a jogar, mas como treinador. Por isso, temos de encontrar metas para nos continuarmos a motivar. Se não tive a possibilidade de lá estar enquanto jogador, é porque vou conseguir como treinador (risos).

Nunca pensou jogar no estrangeiro ou não surgiu qualquer proposta?

Umas possibilidade foram recusadas por mim. Outras que não deu porque no último impasse, já sabemos como é no futebol, basta um clube, um diretor ou um agente… É outra meta que vou conquistar como treinador.

Estamos a falar de que clubes?

Tive uma possibilidade para jogar na segunda Liga de Itália. Na primeira Liga do Chipre, creio que talvez três ou quatro oportunidades, a última delas em janeiro de 2013, quando estava no Moreirense. Tive ainda uma na primeira divisão de Singapura, já com 35 anos, sendo que o treinador até veio falar comigo a Portugal, algo que financeiramente era muito bom. Tive outra possibilidade para jogar em Espanha, no Numancia.

O Jorge Jesus foi quem me puxou para a equipa principal [do Vitória FC], sempre acreditou muito em mim. Com ele aprendi muito, sobretudo a nível tático, porque era um treinador que, já na altura, estava acima dos restantesAo longo da carreira, o Ricardo foi treinado por técnicos como Jorge Jesus, Carlos Carvalhal, José Couceiro [os três no Vitória FC] e ainda Lito Vidigal e Vítor Oliveira [no Portimonense]. O que destaca destes técnicos? E quem é que mais o marcou?

No Vitória FC apanhei o Diamantino Miranda e o Luís Campos, este último foi quem me estreou na I Liga. O Diamantino [Miranda] foi meu treinador em Setúbal e levou-me depois para Portimão, tendo sido alguém que acreditou muito em mim. Lembro-me que eu quase nem era convocado e ele chegou ao Vitória FC, colocou-me logo a titular e até fui chamado à seleção numa das vezes. O eterno Vítor Oliveira todos nós temos como referência. Uma das coisas que eu gostaria muito de levar para a minha carreira é precisamente tudo aquilo que aprendi com ele. Também gostei muito de trabalhar com o Lito Vidigal, fez-me andar, andar e andar. Quanto ao José Couceiro, não ganhámos a Taça de Portugal com ele, mas ele tem parte do trajeto numa altura em que sai para o FC Porto porque estávamos a fazer um grande campeonato. A experiência com o Carlos Carvalhal aconteceu quando estávamos na II Liga [no Vitória FC, em 2003/04] e subimos de divisão. Houve ainda o Vítor Pontes e o [Carlos] Azenha, com quem gostei muito de trabalhar. Bem… O Jorge Jesus foi quem me puxou para a equipa principal [do Vitória FC], sempre acreditou muito em mim e também com ele aprendi muito, sobretudo a nível tático, porque era um treinador que, já na altura, estava acima dos restantes.

Como treinador, gostaria de ter sido ou de ainda vir a ser adjunto de algum desses treinadores? Ou há só o objetivo de vir a ser técnico principal?

Eu acho que não devemos dizer que as coisas só vão acontecer de uma forma. Tenho a ideia de ser treinador principal, mas se surgisse a oportunidade de trabalhar com algum destes técnicos que me treinaram, no papel de adjunto, obviamente que não diria que não. Tive a sorte de apanhar treinadores que tiveram um crescimento muito grande e estão na elite do futebol português.

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